Gravação a ácido

Fazendo gravação a ácido em lâminas de aço carbono

por João Alexandre Voss de Oliveira

vca@cutelariaartesanal.com.br

versão 1.4 – Março de 2015

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ATENÇÃO!

Este tutorial destina-se à apresentação de minha técnica para gravar em lâminas de aço carbono, onde procurei mostrar a maneira pela qual eu atinjo os resultados apresentados em alguns modelos de facas que produzo. Recomenda-se testar antes de realizar uma gravação a ácido definitiva.

Da mesma forma, recomenda-se a utilização de EPIs como máscara de proteção respiratória, óculos e luvas. Os materiais químicos empregados são corrosivos e podem causar sérias lesões, bem como as emanações provenientes do processo de gravação são bastante nocivas ao aparelho respiratório. Use com as precauções necessárias.

Eu não sou responsável pelo uso indevido das informações aqui contidas, bem como por acidentes decorrentes da não observação dos requisitos mínimos de segurança.

Use o presente tutorial como base para suas próprias experiências, e por sua conta e risco.

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Nos últimos tempos eu tenho utilizado uma gravação a ácido na lâmina, em alguns modelos de minhas facas. O objetivo desta gravação é meramente estético, não retirando ou agregando nenhuma qualidade físico-química ao aço.

O processo é o mesmo já conhecido pela maioria daqui, apenas o registrei em função das inúmeras solicitações que recebi de amigos e companheiros aqui do fórum.

Estes são exemplos de trabalhos já feitos, onde utilizei a técnica:

O resultado final vai variar de acordo com o aço utilizado – alguns apresentam um contraste maior – e do tempo de gravação – quanto maior, mais profunda a gravação. O ideal é uma gravação suficientemente profunda para que as marcas não sejam retiradas com o uso da faca.

Inicialmente a lâmina é lixada até o grão 400 (lixa d´água). Em seguida, é feito um pré isolamento da lâmina. É importante isolar bem a área que não será gravada, pois os vapores que emanam da corrosão afetam toda a superfície metálica com que entram em contato (portanto, cuidado!). Este isolamento “grosso” pode ser feito com fita crepe. Busque um desenho que combine com as linhas da faca. Neste caso eu quis que a linha acompanhasse a base do cabo:

Em seguida é feito o detalhamento do desenho a ser gravado. É importante planejar bem este desenho antes de começar a fazê-lo. Eu utilizo um lápis específico para escrita em metais, e traço o padrão que eu quero. Este padrão é feito em ambas as faces da lâmina:

Definido o desenho a lápis, é hora de usar a tinta para a marcação a área a ser protegida do ácido.

A receita da tinta que utilizo pode ser encontrada aqui:

http://www.cutelariaartesanal.com.br/forum/index.php?topic=131.0

Eu utilizo um pincel bem fino. A camada de tinta deve ser grossa, pois camadas finas deixam o metal desprotegido:

Após ter sido feito o desenho com a tinta específica, é preciso deixar secar. Algumas horas devem ser suficientes, e procure conferir todos os pontos. Aqui não há margem para erros, e superfícies que não receberem a tinta ficarão marcadas definitivamente.

Depois de bem seca a tinta, é hora de iniciar a gravação. Procure um local limpo e arejado, com uma base que possa receber o excesso de ácido que for sendo retirado durante o processo. Eu faço a gravação sobre a minha lixeira de material seco da oficina. Eu faço a gravação com a faca na mão, já que é preciso virar a peça repetidamente – só fixei por conta das fotos:

Eu utilizo ácido nítrico a 50%, misturado com um pouco de percloreto de ferro. Não sei a proporção, e faço assim pois na prática me pareceu que o ácido trabalha mais e melhor quando recebe o percloreto de ferro. Utilizo um conta gotas plástico para pingar o ácido na lâmina. Aplico uma pequena quantidade (um conta gotas cheio por vez) e espalho com o próprio conta gotas. O ácido começa a trabalhar de imediato, atacando o metal e produzindo uma espuma, calor e uma fumaça avermelhada bastante corrosiva – cuide para que não se deposite em nada metálico:

Aplique a solução em ambos os lados da lâmina – aplique em um lado, vire e aplique no outro, espalhando bem a espuma que se forma. Passados uns cinco minutos você notará que a solução está ficando saturada e perdendo o efeito: é hora de limpar e repetir o processo novamente. Eu vou aplicando e limpando por cerca de vinte minutos, geralmente é o tempo suficiente para que eu obtenha uma boa profundidade na gravação. Cuide para que a solução atinja bem toda a superfície metálica, e não se acumule em excesso em nenhum ponto:

Passado o tempo total de gravação, eu lavo a lâmina em água corrente e seco bem com papel toalha.

Aqui é possível ver que a gravação ficou com uma boa profundidade. Em seguida, utilizando aguarrás, eu limpo a tinta e exponho a região gravada:

Prossigo na limpeza e na retirada também da fita crepe que protegeu o corpo da lâmina. Após uma rápida verificação, a lâmina é lavada com água e sabão, recebendo uma boa escovada com” scotch-brite”, sempre no sentido do cabo para a ponta. Se o isolamento foi feito corretamente, não há pontos com manchas na área protegida:

Após a limpeza com a esponja, é hora do banho final em percloreto de ferro. A faca fica na solução por cerca de 5 minutos – o tempo pode variar de acordo com a concentração -, acompanhe o processo retirando e inspecionando a lâmina até obter o resultado desejado. A lâmina então é limpa:

Em seguida aplico uma boa dose de bicarbonato de sódio para neutralizar o percloreto. A faca é novamente lavada com a esponja verde, sempre do cabo para a ponta, até se obter o resultado final desejado:

Este banho em percloreto será repetido quando a faca tiver o cabo montado e acabado. Este é o aspecto final da lâmina após o processo de gravação:

Este é o aspecto final do trabalho:

O processo que utilizo para a gravação é este aí, amigos. Espero que este registro possa ser útil de alguma forma aos mais curiosos que desejarem tentar esta gravação em suas lâminas.

É importante destacar que algum pessoal que vê as fotos na Internet – potenciais clientes, talvez por desconhecimento, às vezes confunda esta técnica com a formação da linha de têmpera, com “san-mai”, com “hamon” ou outra técnica que marque a lâmina. É preciso esclarecer que é apenas uma técnica de gravação a ácido para não entregar gato por lebre …

Críticas, sugestões e dúvidas, estamos às ordens.

Um abraço!